Há muitas maneiras de se chegar a Santiago de Compostela e mais razões ainda pelas quais alguém decide fazer uma peregrinação. Eu decidi fazer o Caminho de Santiago há dez anos. O plano era peregrinar pelo Caminho Francês, o mais tradicional dos caminos. Só que a vida nem sempre permite que planos sejam concretizados, então a minha próxima oportunidade aconteceu agora, em outubro de 2024, dez anos depois da primeira tentativa.
Planejando o Caminho
Realidade no Caminho de Santiago
Mudança de planos
O retorno ao Caminho de Santiago
Sozinha no Caminho
A chegada em Santiago de Compostela
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Desta vez escolhi uma versão reduzida do Caminho Português da costa. A ideia era fazer os últimos 100km para Santiago simplesmente porque era o tempo que eu tinha disponível: 6 dias.
Seriam cinco dias de caminhada com uma média de 20 km por dia. Me pareceu tranquilo. Estou bem acostumada a caminhar e a trilhar. Hoje em dia, fico entre quatro e dez quilômetros de trilha por semana por levar meus filhos pequenos comigo, mas desta vez estaria sozinha.
Cem quilômetros é o mínimo necessário para receber o certificado de peregrinação em Santiago de Compostela, o famoso Compostela, por isso escolhi esta redução. Isso não quer dizer que receber o Compostela fosse meu objetivo. Eu queria mesmo era terminar algo que comecei há dez anos e, de quebra, passar um tempo sem falar com ninguém.
Não contei a quase ninguém que eu ia porque tinha medo de acabar acompanhada e esta era minha oportunidade de ficar totalmente sozinha. Se alguém quisesse ir comigo eu ia gostar muito e não negaria, mas perderia a tal da oportunidade.
Passei por aldeias, mas também por florestas lindas nos dias em que caminhei. Foto: Roberta SchmoiAntes de casar e ter filhos, eu viajava muito sozinha. Sentia receio, mas usava o frio na barriga como motor para a coragem. Conhecia gente nova e ia parar em conversas e lugares totalmente inusitados.
Não sinto mais falta dessas experiências que já passaram, mas estava ansiosa para descobrir o que poderia acontecer com a minha versão mais velha (e mais cansada) nesta experiência onde não queria falar com ninguém e talvez fosse a única ali que sequer fazia questão de terminar.
Fiquei doente a poucos dias da viagem. Resolvi ir mesmo assim, tomando antibiótico. Quando teria esta oportunidade novamente? A vantagem da doença é que me ajudou a criar ainda menos expectativas.
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O Caminho era muito bem sinalizado e logo me acostumei a cruzar com outros peregrinos e a cumprimentá-los com “Buen Camino!”, o cumprimento oficial dos peregrinos. No meu primeiro dia, já comprei uma vieira de uma senhorinha na estrada.
A vieira é a concha do peregrino e o símbolo oficial deste grupo que, há menos de 100 anos, era admirado em todos os vilarejos por onde passavam. Hoje, já não é bem assim. Os Caminhos para Santiago se popularizaram bastante e perderam muito do fator provação religiosa. Os peregrinos hoje são em sua maioria turistas aventureiros e eu só encontrei uma pessoa que estava fazendo por motivos religiosos.
Caminhando no escuro. É importante levar uma lanterna para o Caminho de Santiago. Foto: Roberta SchmoiDurante o outono, chove muito no sul da Galícia e eu peguei bastante chuva no percurso. Estava usando uma bota que já está cansada de conhecer as curvas dos meus pés, mas mesmo assim comecei a formar bolhas. No fim do meu segundo dia, já não tinha pés. Mal conseguia pisar no chão. Eu estava em um bom passo e achava que conseguiria terminar o Caminho em quatro dias, mas o destino tinha outros planos.
Uma senhora americana de mais de 70 anos me ofereceu seus curativos para bolhas. Orgulhosa, me contou que estava caminhando desde o Porto e ainda não tinha feito uma bolha sequer. Seu segredo era caminhar devagar. Outra peregrina me ofereceu suas meias grossas, próprias para evitar bolhas. Não aceitei, eu também tinha meias grossas e ia testar no dia seguinte.
Nesta noite, jantamos todos em uma longa mesa no jardim do albergue. Pessoas de diferentes nacionalidades e idades rindo e bebendo vinho. Essa parte de ser viajante sozinha era algo que já não estava mais fresco na memória, mas que logo me sentir em casa.
Mudança de planos
No dia seguinte acordei bem cedo e saí ainda no escuro. Neste terceiro dia, andaria até Caldas de Reis e lá iria decidir se pegaria um ônibus de volta para casa ou se seguiria adiante. Não precisei nem chegar em Caldas de Reis para decidir que teria que terminar o Caminho de Santiago em outro momento.
Doze quilômetros na chuva foram suficientes para destruir ainda mais meus pés que agora estavam quase totalmente cobertos por dolorosas bolhas.
Eu me arrastava. Segui me arrastando até a catedral da cidade. Eu precisava carimbar meu passaporte ali se quisesse voltar a fazer o Caminho começando da cidade onde parei.
O Caminho de Santiago pode ser feito em etapas não consecutivas e eu ainda tenho pelo menos dois dias de caminhada pela frente. Os 59 quilômetros de Caminho de Santiago que andei foram cobertos por uma hora e meia dentro de um ônibus, mas tudo que caminhei internamente dentro de mim não dá para mensurar.
O mais importante em uma viagem e na vida é sempre o caminho, não a chegada.
O retorno ao Caminho de Santiago
Foi mais ou menos um mês depois que percebi que poderia continuar ali mesmo, naquela semana. Era domingo de manhã quando meu marido e filhos me levaram até Caldas de Reis e me deixaram na porta da igreja, onde carimbei meu passaporte peregrino da última vez. Precisaria caminhar aquela tarde e depois mais dois dias. Faltava pouco.
Desta vez comprei umas meias específicas de trekking, não de trilha como as que tinha antes. Esqueci a vaselina que me recomendaram da última vez, mas troquei a palmilha das minhas velhas botas e fui.
Os albergues públicos não aceitam reservas, mas para andar a distância que eu queria andar naquele dia, eu teria que arriscar. Preocupada, cheguei no albergue e descobri que havia apenas outras duas pessoas compartilhando o espaço comigo. Em novembro ninguém faz o Caminho Português para Santiago. Isso ficou ainda mais claro no dia seguinte.
Sozinha no Caminho
Saí bem cedo na manhã seguinte, ainda estava escuro. Levei uma lanterna de cabeça e foi bem tranquilo. Não chovia e não choveria durante todo o resto do meu tempo no caminho. Tive sorte porque em novembro costuma chover muito na Galícia.
No dia anterior, pensei que não via ninguém porque havia começado na hora do almoço em uma cidade de onde as pessoas partem pela manhã. A verdade era outra. Em novembro quase ninguém faz esta caminhada. Em algum momento, uma das pessoas que dividiam quarto comigo (um brasileiro lendo O Diário de um Mago, livro no qual Paulo Coelho conta sobre o seu caminho lá em 1986) me ultrapassou e foi basicamente isso.
A concha pendurada na minha mochila é o que identifica os peregrinos no Caminho de Santiago. Foto: Roberta SchmoiDurante estes três dias cruzei com menos de dez peregrinos e a maior parte foi durante a minha última manhã, já quase em Santiago. Deu medo? Às vezes.
Tive medo quando me dei conta de que havia uma barraca montada ao lado da trilha. Tive medo quando estava bem escuro e eu ouvia um barulho na floresta. Um amigo me enviou uma notícia sobre mulheres assediadas durante o caminho e carreguei uma pedra comigo até o dia clarear, como se a luz do sol fosse me salvar.
São pouquíssimos os casos de assédio no Caminho de Santiago, mas eles existem. Ser mulher é complicado até durante uma peregrinação, mas eu teria feito tudo de novo. Fazer o percurso sozinha, mesmo que só os últimos 100 km, mesmo que em duas etapas, mesmo que em novembro, foi muito importante para mim.
A chegada em Santiago de Compostela
Saí bem cedo da minha acomodação. A vila era honestamente feia e não havia muitas opções para comer. Me juraram que a birosca abriria às 7h30, mas isso não aconteceu e eu segui sem café da manhã mesmo. Tem isso também. Em novembro, todos os cafés badalados que permeiam o Caminho de Santiago já estão de portas fechadas. O Caminho é um negócio de maio a outubro.
Só encontrei comida a oito quilômetros da Catedral de Santiago. A chegada na cidade é estranha. Caminhei por estradas, bairros residenciais e por ruas comuns com gente indo e vindo. Um cartaz oferecendo tatuagens a preços especiais para peregrinos me mostrava que estava na cidade certa.
De repente, cheguei ao centro histórico de Santiago de Compostela. Entrei direto na fila para a catedral, mas me informaram que mochila não entra. Oxi, mas peregrinos vêm diariamente de tudo quanto é lugar para entrar aqui. Logo me dei conta das muitas lojinhas de souvenir que trabalhavam também como guardadoras de mochilas. Paguei 3 euros para deixar a minha e entrei na hora da missa.
Este é o Compostela: certificado que atesta que não foi tudo um sonho. Foto: Roberta SchmoiA igreja é uma loucura extravagante. Tudo de ouro. A tradição manda que peregrinos entrem na fila para ver o baú onde se encontram os restos mortais do apóstolo (proibido parar, proibido fotos) e depois siga com a fila para o alto do altar, em um corredor que passa por trás da estátua de Santiago e lhe deem um abraço de gratidão e talvez lhes façam um pedido. Aí acaba.
Próximo a catedral é possível fazer o pedido e a recolha do Compostela, o certificado de completude do Caminho de Santiago. É possível também pedir um atestado dos quilômetros percorridos por 3€ que eu não quis. Me pareceu uma bobagem ter um certificado de uma caminhada que é muito mais interna do que as bolhas dos pés sugerem.
Se me perguntarem se fazer o Caminho de Santiago vale a pena, eu vou sempre dizer que sim.