Quem gosta de viajar sempre sonha em conhecer o mundo. Mas essa tarefa é um grande desafio, já que há infinitas possibilidades de lugares para se conhecer no planeta, concorrendo com nosso tempo, cada vez mais escasso e, por isso, mais precioso. A rotina acelerada que todos temos não nos deixa viver plenamente, pois estamos repletos de compromissos e, claro, a todo o momento, pensando no próximo destino de férias para podermos, na teoria, descansar.
Quanto mais lugares, melhor?
Para que correr?
Desacelere seu ritmo de viagem
Um novo jeito de viajar
O que se ganha ao desacelerar?
Menos é mais
Vamos tentar desacelerar?
E, por ironia, para os que estão constantemente planejando um novo roteiro, a solução quase sempre encontrada é: quanto mais, melhor. Isso significa que quanto mais lugares se visitar em menos tempo, em uma só viagem, mais acertado é o planejamento. Mas será que assim é melhor mesmo? Vamos pensar juntos.
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Quero meu roteiro personalizado →Quanto mais lugares, melhor?
Confesso que já agi muito desta forma. Quando eu morava no Brasil, várias vezes passei minhas férias no exterior. No entanto, eu só conseguia tirar férias uma vez ao ano, o que me exigia fazer um extenso roteiro, encaixando os lugares que eu gostaria de conhecer (muitos) com a quantidade de dias disponíveis que eu poderia me ausentar do trabalho.
E, para mim, quanto mais lugares eu visitasse, melhor, já que minha próxima viagem internacional seria somente no ano seguinte, uma longa espera.
Já fiz viagens visitando três, quatro países em aproximadamente 20, 25 dias, passando, no sentido literal da palavra, por muitas cidades, em uma verdadeira correria. Museus, monumentos, parques, catedral, nada escapava do meu apertado roteiro.
Sim, sou aquela que já ficou apenas um dia em uma cidade. Tudo bem, no caso, eram pequenas, mas o estresse era o mesmo: check-in em um dia, abrir malas e, logo no dia seguinte pela manhã, fechar malas, check-out e partir novamente para o próximo destino.
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Agendar minha conversa →Para que correr?
Vejo que muita gente continua viajando desta forma, principalmente em um mundo que se baseia na rapidez. Aliás, muitos têm mais pressa ainda, reservando apenas um ou dois dias em cada lugar, mesmo sendo uma cidade grande ou capital, com inúmeras opções do que ver e fazer, de passeios e pontos turísticos.
Não há tempo suficiente sequer para visitar um museu (por mais importante que seja), e tampouco para conhecer de verdade a região escolhida com tanto afinco e antecedência.
Mas o que se pretende com isso? Por que tanta pressa? No meu caso, era a sede de tentar conhecer mais e mais lugares, de aproveitar ao máximo meu tempo disponível. No final, voltava para casa com o dever cumprido, mas sempre pensava que havia faltado tempo para isso ou aquilo. Claro, é impossível ver e conhecer tudo.
Para os viajantes — especialmente os principiantes — de hoje em dia há mais um agravante: o fenômeno das redes sociais, em que muita gente quer apenas “ticar” que esteve em algum lugar, principalmente alguns destinos da moda, aumentando assim a lista de cidades e países visitados.
No entanto, visitar e conhecer são palavras distintas, pois, para conhecer de verdade, é preciso tempo. Afinal, é possível conhecer Paris, Madrid ou Amsterdã em um ou dois dias? Definitivamente, não.
Desacelere seu ritmo de viagem
Na correria do dia a dia, acabamos levando a pressa para nossas férias que seriam, em princípio, o momento oportuno para desacelerar. E essa ansiedade para conhecer absolutamente tudo cansa e aí vem a vontade — e quase que necessidade — de tirar férias das férias.
Quem nunca ouviu falar desta expressão? E de que adianta voltar das férias e de uma longa viagem dos sonhos cansado e estressado? Com estes dissabores, muitos viajantes têm se convertido ao chamado “slow travel”, ou viagem lenta, em português.
O conceito surgiu na Itália, na década de 1980, a partir do movimento internacional slow food, criado pelo ativista italiano Carlo Petrini. O objetivo é desacelerar nosso ritmo frenético nas atividades do dia a dia. No caso do slow food, é em relação à alimentação, mas, a partir daí, a filosofia se expandiu para outras áreas, incluindo o turismo.
Os adeptos da prática não se preocupam em dar a volta ao mundo em poucos dias, tampouco em conhecer os famosos 1000 lugares antes de morrer de uma só vez.
O essencial é elaborar um roteiro conciso, com menos destinos e estadias mais longas em cada um deles. Mesmo que, para isso, seja preciso reduzir o número de países do planejamento, afinal um carimbo no passaporte não quer dizer que se conheceu algum local de fato.
Ao promover a valorização da experiência, o slow travel proporciona a possibilidade de se aprofundar verdadeiramente em cada região, fazendo uma imersão na cultura e história das cidades escolhidas. Com menos destinos e estadias mais longas, é possível fazer tudo sem pressa, aproveitando o que cada lugar tem a oferecer.
Um novo jeito de viajar
Já que o mundo não vai acabar amanhã, nem no ano seguinte, para que a pressa? Imagine chegar ao destino tão planejado, fazer check-in no hotel, Airbnb, casa de algum conhecido ou qualquer hospedagem que seja, e não precisar acordar tão cedo no dia seguinte para começar a programação.
Ao se levantar, degustar calmamente o café da manhã e só depois sair para passear. E isso significa caminhar e não “correr”.
Ultimamente, tenho feito viagens assim e a experiência é realmente muito diferente. Nada de acordar tão cedo, às 6h ou 7h, a menos que haja algum voo ou trem programado para a manhã seguinte. Depois, um café da manhã mais demorado, saboroso e farto e, só em seguida, sair para desbravar a cidade.
Antes de viajar, costumo estudar o meu destino, ler sobre a história, a cultura, os costumes e as atrações. E, ao caminhar, vou reconhecendo de perto os pontos turísticos, me atentando aos detalhes. Como gosto de fotografia, também perco — ou ganho — bastante tempo tirando fotos.
Entre um passeio e outro, uma parada em um café é aconchegante e vai muito bem. Ao contrário de perder tempo, isso é simplesmente desfrutar do destino.
Degustar um café ou chocolate quente com bolo, observando a paisagem e o vai e vem das pessoas, sejam turistas ou locais, ora apressadas, ora descontraídas. Acostume-se, as pausas são necessárias e também fazem parte do roteiro!
Toda viagem é, ou pelo menos deveria ser, um aprendizado. Viver intensamente um destino diferente, constatar que o mundo é uma imensidão, com culturas e costumes distintos, é uma lição e tanto. Porém, para conseguir perceber tudo isso, é essencial desacelerar.
O que se ganha ao desacelerar?
Uma viagem mais lenta só tem benefícios. É possível aproveitar o local mais intensamente, internalizar o aprendizado da cultura e dos costumes, saborear a gastronomia, arriscar-se no idioma local, descobrir cantinhos que não estavam na programação e, quem sabe, conhecer pessoas.
Visitar um museu com tranquilidade, prestando atenção nas obras e lendo as informações, é muito mais proveitoso do que simplesmente “passar os olhos” no acervo e partir para a próxima atividade. Isto também vale para visitas a importantes monumentos e construções históricas.
Ter tempo para almoçar ou jantar (ou os dois) em um restaurante local e provar pratos diferentes fará com que amplie seu acervo gastronômico.
Quem gosta de cozinhar, por exemplo, tem tempo para fazer um curso de culinária local e, para os apreciadores de vinho, dá para agendar degustações em vinícolas. Há ainda aula de dança típica da região, assistir espetáculos de música ou até passear em livrarias.
Andar em feiras livres também é um programa não só para ver os itens que são vendidos como também para comer algo típico, feito na hora. No Brasil, é o pastel, e nos outros países?
Ao realizar as atividades sem pressa e optar por uma imersão nas cidades escolhidas, cada viagem torna-se única e ainda mais inesquecível. E só assim será possível falar que conheceu, de fato, algum lugar.
Menos é mais
Se a preocupação for com os gastos, há mais um ponto a favor do slow travel. Como este estilo de viagem requer mais tempo em cada lugar, consequentemente, há menos deslocamento. Isso se traduz em economia com transporte, qualquer que seja ele. Afinal, quem fica pulando de uma cidade para outra sabe que a despesa tende a aumentar.
Com mais dias em cada destino, é possível ainda abdicar de hotel e alugar um apartamento, experimentando a vida como um local.
Frequentar supermercado para compras do café da manhã fará com que se descubra produtos regionais, típicos da cidade em que está. Quem já entrou em supermercados de outros países sabe como é prazeroso se deparar com novos produtos e ingredientes.
Alternativamente, há a possibilidade de se hospedar em um pequeno local familiar ou bed and breakfast, que proporciona um contato direto e mais próximo com os proprietários.
É muito bom conversar com moradores para saber como é a vida na tal cidade, o dia a dia, os problemas e desafios. Sim, também é interessante saber sobre a parte negativa, uma vez que nós, como turistas, muitas vezes ficamos com a imagem de que o lugar é perfeito, o que nunca é verdade.
Vamos tentar desacelerar?
No slow travel, o que conta é a experiência e é maravilhoso voltar para casa com a bagagem repleta de memórias e histórias para contar. A viagem torna-se ainda mais um grande aprendizado que, dependendo do destino, sai dos livros para a vida real.
Confesso que, vez ou outra, ainda me arrisco em algumas viagens mais corridas, principalmente quando é um período curto, por exemplo, de quatro ou cinco dias. Neste caso, acabo fazendo uma pequena correria para dar tempo de conhecer os pontos turísticos e mais um pouco.
Mas, após muitos anos sendo uma voraz viajante, aprendi que nem sempre mais é mais. No turismo, muitas vezes o menos pode ser muito mais, e melhor.