Me recordo de, no início do último inverno, vagar pelas ruas do 13º arrondissement de Paris. Minha fiel Canon 6D, um trambolhão magnífico e nada discreto, era minha companheira enquanto eu tentava capturar a vida parisiense sem atrair demasiada atenção — uma tarefa quase impossível com aquele equipamento. Naquele inverno, me perguntei quem (ou o que) eu era: viajante ou turista?
Indo no contrafluxo
Ser turista, ser viajante
Teorizando sobre o dilema do viajante X turista
Identificando o desejo de ser viajante
O "mundo do turismo"
A fluidez do viajante-turista
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A escolha pelo 13º arrondissement não fora aleatória; esse canto do caracol de Paris, cidade que não carece de atrações, é simbólico para essa divagação, pois ainda foge um pouco das hordas que se acotovelam em outros pontos mais celebrados, turísticos.
É um distrito que, tal qual Charenton-le-Pont, por onde passei, conserva ares de vila, onde os preços ainda não atingiram a estratosfera e onde se pode encontrar um sintoma de autenticidade, longe daquele ar bobo (de bourgeois-bohème) que, arrisco dizer, infesta a cidade mais do que os próprios ratos.
Paris, ao lado de Veneza, sempre ocupou um lugar especial no meu panteão afetivo de destinos, meu “número zero”. Em ambas, me encanta a arquitetura, o clima, as cores e, curiosamente, até a lendária (e por vezes merecida) antipatia dos seus habitantes, que parecem viver numa constante e compreensível aversão aos turistas.
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Ah, os turistas. Figuras muitas vezes apressadas, movidas por uma lista de desejos. Quem nunca se deparou com esses tipos usando roupas fora dos códigos locais, com seus celulares levantados, numa ânsia compreensível de absorver o máximo, de preencher seus “museus imaginários”, parafraseando a brilhante teoria de André Malraux sobre nossa relação com a arte?
Para muitos, o tempo é curto, a oportunidade única, e cada monumento visto, cada obra contemplada, é uma conquista pessoal, a realização de um sonho frequentemente bastante caro e longamente cultivado.

Essa forma de explorar, tão característica de quem tem o mundo por descobrir e pouco tempo a perder, contrasta com outro perfil, muitas vezes mais solitário (mas nem por isso menos feliz), que em seu universo particular parece experimentar a cidade por onde passa como quem desfruta de um café muito quente: em pequenos goles, devagar, permitindo que cada sensação se assente.
Foi justamente num desses dias parisienses, entre um clique e outro no 13ème, que uma questão simples, porém incômoda, surgiu e, desde então, nunca mais me abandonou: afinal, naquele momento, naquela cidade que tanto amava, eu era um viajante ou turista?
A pergunta, à primeira vista, pode parecer trivial, um mero exercício de nomenclatura. Mas, quanto mais eu pensava, mais ela se revelava um daqueles quebra-cabeças interiores, com peças que insistem em não se encaixar.
Teorizando sobre o dilema do viajante X turista
Sejamos francos, quem nunca se viu, mesmo que por um instante, no papel do turista clássico? Eu já me vi e isso acontece cada vez que visito um novo lugar. E confesso que há uma alegria muito particular em se render aos grandes ícones.
Aquele que não se emociona diante da Monalisa e da imensidão do Museu do Louvre, mesmo que seja por um breve instante entre a multidão, ou não sente o peso da história ao caminhar pelas ruínas do Coliseu, precisa ser estudado.
Esses lugares (como tantos outros) são faróis da nossa cultura, e visitá-los é, muitas vezes, um rito de passagem, uma forma de nos conectarmos com um legado que transcende o individual.
Afinal, quem nunca sentiu aquela pontinha de ansiedade para visitar o ponto icônico, para garantir a foto que materializaria a experiência? Esse impulso de registrar, de levar consigo uma prova da passagem, é quase visceral.
Roland Barthes dizia sobre a fotografia que ela carrega consigo um teimoso “isso foi” (ça a été). Cada clique turístico, então, não seria um pequeno certificado desse “isso foi”, um atestado de que “eu estive em determinado lugar ou de que isso esteve diante de mim”?
As imagens preenchem nosso museu imaginário particular, como queria Malraux, mas também servem como relíquias de momentos vividos, ou que gostaríamos de ter vivido com mais intensidade.

O que passou, passou, e a fotografia — seja do turista ou do viajante — atesta a suspensão do que nunca mais acontecerá novamente. Pensar fotograficamente exige um nível de abstração importante e me parece fazer muito sentido.
E há mais: essa busca pela foto perfeita, pelo ângulo consagrado que vimos em tantos cartões-postais ou feeds de viagem, não nos coloca, por vezes, no encalço do que Walter Benjamin chamaria de “reprodutibilidade”?
Viajamos milhares de quilômetros, enfrentamos filas, para, muitas vezes, replicar uma imagem que já existe, como se nossa experiência só ganhasse validade ao se conformar a um padrão visual pré-estabelecido.
A aura do instante único, da descoberta pessoal, pode se esvair um pouco quando o objetivo principal é o atestado fotográfico, a chancela de que cumprimos o rito.
Não que haja mal intrínseco nisso, como já disse; o desejo de compartilhar, de criar memórias palpáveis (ou digitalmente acessíveis), de possuir, ainda que simbolicamente, um fragmento daquele deslumbramento, é profundamente humano. Trata-se de uma camada da experiência que vale a pena observar, sem julgamentos, apenas com curiosidade.
Identificando o desejo de ser viajante
Por outro lado, havia em mim — e sei que ainda pulsa — um desejo por algo que transcendesse esse ritual da confirmação visual, mesmo reconhecendo seu valor e seu apelo.
Um anseio por me sentar à mesa daquele hipotético café e realmente desfrutá-lo vagarosamente. De me embrenhar pelas vielas anônimas, aquelas que não constam nos guias, e tentar decifrar a melodia da vida comum.
Recordo-me dos escritos de Annie Ernaux, especialmente no pequenino Journal du dehors (emprestado por minha companheira Barbara Ábile), em que Ernaux, com sensibilidade aguçada, registra fragmentos do cotidiano, a vida anônima que se desenrola no transporte público parisiense, nos supermercados, nas ruas.

Era um pouco essa postura que eu invejava e buscava: a de um observador atento, que não busca apenas o espetacular, mas o significativo no ordinário. Ernaux não estava “turistando” no sentido convencional; ela estava vivendo e registrando a pulsação da cidade de uma forma que talvez escape a quem está focado apenas nos grandes feitos.
Esse mergulho mais profundo, essa tentativa de sentir o lugar para além de sua fachada turística, talvez seja o que diferencie a simples informação acumulada — nomes de monumentos, datas históricas, curiosidades — da experiência genuína, aquela que, como também apontou Benjamin, tem o potencial de se transformar em narrativa, em algo que carregamos conosco e que pode, de fato, nos ensinar algo.
O viajante, nesse sentido, não seria apenas um colecionador de carimbos no passaporte, mas um tecelão de histórias, tanto as próprias quanto a dos outros.
O “mundo do turismo”
Nesse emaranhado de papéis, como se encaixam as interações humanas? O sociólogo Howard Becker falava dos “mundos da arte”, sistemas complexos em que cada um desempenha um papel.
Podemos pensar no “mundo do turismo” de forma semelhante: há o turista com seu roteiro meticulosamente formulado no Wanderlog (que, por sua vez, tem suas origens na expressão alemã wanderlust — desejo de viajar), muitas vezes ávido por otimizar seu tempo precioso; o guia com suas explicações, buscando encantar e informar; o vendedor de souvenirs com seus produtos, símbolos tangíveis daquela passagem; o local que ora se esquiva, ora interage, cada um navegando nesse encontro de universos.
É um palco com personagens bem definidos. O viajante, talvez, seja aquele que tenta improvisar um pouco mais nesse palco, que busca um diálogo fora do script, que arrisca ser um outsider na tentativa de uma conexão mais autêntica, mesmo que isso gere algum estranhamento mútuo.
Afinal, quem é o verdadeiro outsider nessa dinâmica? O morador que vê sua cidade constantemente transformada ou o visitante que anseia por uma fresta de pertencimento (ou pela simples chance de passar despercebido)?
E ali estava eu, no 13ème, com minha câmera-trambolho (vendida, que saudade), um paradoxo ambulante. Buscava a autenticidade, mas meu instrumento de observação era, em si, uma forma de mediação, talvez de intrusão.
O que eu realmente queria capturar? Seria apenas a beleza superficial, o exotismo do cotidiano alheio? Ou, sem ter plena consciência, eu buscava o que Didi-Huberman descreve como ‘imagens apesar de tudo’ — aqueles fragmentos que, mesmo na aparente banalidade ou na crueza da realidade, carregam uma centelha de verdade, uma sobrevivência do tempo e da humanidade?
Queria eu apenas congelar o instante ou sentir as camadas de história que aquele distrito da capital, menos maquiado para o turismo, ainda deixava transparecer?
A relação com o tempo do lugar muda drasticamente: o turista, muitas vezes condicionado pela escassez do seu próprio tempo, consome o presente em alta velocidade; o viajante, quando pode, tateia o passado que insiste em respirar no agora: apesar do tempo, apesar do turismo vertiginoso, apesar de tudo.
A fluidez do viajante-turista
A linha entre esses papéis, percebo cada vez mais, não é uma fronteira rígida, mas uma zona de transição, um espectro pelo qual nos movemos constantemente e às vezes sem sequer perceber.
Há dias em que a alma pede a simplicidade de ser turista, de se deixar levar pelo fluxo, de se encantar com o óbvio e colecionar memórias como quem junta conchas na praia. E que mal há nisso?
Sejamos turistas quando desejarmos! Nesses momentos, a leveza do “estive lá” basta e conforta, e a emoção de ver com os próprios olhos aquilo que só se conhecia por livros ou telas é genuína e poderosa.

Quando encontro minha mãe, um de nossos programas favoritos é rever fotos de viagem, dos ícones, dos pontos turísticos de Paris. Isso só é possível pelo comportamento turístico que nos levou a capturar tais registros, em tais instantes. Algo que passou, que está morto, e só faz sentido em nosso museu imaginário.
Em outros momentos, porém, surge uma necessidade quase física de ir além, de ultrapassar a superficialidade, de se embrenhar no desconhecido, mesmo que isso traga consigo o peso da incerteza ou a melancolia da solidão.
Hoje, aquela pergunta nascida sob o céu cinzento de Paris não me assombra mais com a urgência de uma resposta definitiva. Entendi que a beleza da dúvida reside justamente na reflexão contínua que ela me impõe.
E é essa reflexão, esse olhar curioso para dentro enquanto olhamos para fora, que talvez seja o maior presente de qualquer viagem. Não importa o rótulo que escolhemos ou que nos atribuem: cada viagem é um espelho, e a imagem que ele nos devolve é sempre uma nova pista sobre quem estamos nos tornando.
E quer saber? Está tudo bem ser turista de vez em quando, maravilhar-se com o mundo e seus postais vivos. Mas cultivar o olhar de viajante, esse que busca um pouco mais, enriquece a alma de forma atemporal: apesar do tempo.