Se você, como eu, também tem um ente querido que está na melhor idade, mas que é do tipo “topa tudo”, vai se encontrar na minha coluna deste mês. Quero compartilhar um pouco do que é viajar com idosos, porque descobri que essa experiência é uma mistura de paciência, ajustes, risadas e memórias que só existem porque o tempo deixou de ser inimigo e virou companhia.
O que muda quando viajamos com idosos
Os maiores desafios
Como adaptar o planejamento
Os momentos que ficam para sempre
Pequenos truques que salvam a viagem
Mais qualidade, menos quantidade
Ao longo da vida, minha mãe fez muito por mim. E a melhor forma que encontrei de agradecê-la foi proporcionando viagens inesquecíveis. Só que isso tem um custo (e nem estou falando de dinheiro). Tem o custo do tempo, da paciência, das pausas, dos improvisos e, sobretudo, da renúncia a um tipo de turismo acelerado, para abraçar outro, muito mais humano.
Quero te contar histórias. Vem comigo.
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Viajar com pessoas idosas é outra coisa, não é melhor nem pior. É como trocar a pressa de um TGV (o trem de alta velocidade) pela cadência de um passeio de bonde: você demora mais pra chegar, mas enxerga o caminho com muito mais detalhes.
Quando viajo sozinho ou com a minha companheira, a agenda é lotada: acordar cedo, pegar avião para outro país de manhã e voltar à noite, encaixar três museus no mesmo dia, fazer um bate e volta de trem. Com minha mãe, nada disso funciona. Os deslocamentos precisam ser mais sossegados, as pausas são obrigatórias, e toda rua pode virar cenário de uma sessão de fotos.

E há um detalhe prático que só descobre quem viaja com idosos: a cada pausa para ir ao banheiro, na Europa, você também vai consumir algo (você não pode simplesmente entrar num estabelecimento e usar o toilette).
Banheiros públicos? Ou são inexistentes ou estão em condições duvidosas. Cada “xixizinho” vira um café, uma água mineral, uma comidinha. A despesa aumenta, mas o ritmo muda para melhor, porque cada parada também é uma chance de observar, de conversar, de rir. Ou de apenas apreciar a companhia em silêncio.
Viajar com pessoas idosas também tem outras situações curiosas. Minha mãe, por exemplo, tem o hábito de abrir os braços para “saudar” a Torre Eiffel cada vez que a visita. E os olhos dela se enchem de lágrimas.
Acho cafona? Talvez. Vou julgar? Nunca. Ser turista é isso. Deixar-se levar. Ela pode, ela merece e ela faz o que achar que deve fazer: não está incomodando ninguém, então tudo bem!
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Desafios não faltam. O primeiro é o tempo de deslocamento. Se você calcula meia hora entre ponto A e ponto B, pode dobrar essa previsão. A velocidade da caminhada diminui, e qualquer mureta, banco ou degrau é motivo para a clássica frase: “Vamos dar uma sentadinha, dois minutos?”
Outro desafio é a mobilidade. Antes de cada viagem, passo horas avaliando hospedagens em sites como o Airbnb. Escrevo aos anfitriões para perguntar: há escadas? Quantos degraus? O metrô fica longe? A rua é inclinada? Parece exagero, mas não é. Imagine subir três andares com malas sem ajuda. A escolha errada pode azedar o humor e comprometer o passeio.
E há os acidentes inesperados. Numa dessas, minha mãe levantou do banco do metrô antes de o vagão parar. Um tranco final (aquela frenagem que faltava) e… lá se foi o joelho.

Não quebrou, mas torceu. Resultado: hospital, raio-x, farmácia, pomadas, remédios. Dias de férias encurtados. O que fazer em Londres, que estava no roteiro, foi para o ralo. Mas tínhamos seguro viagem para Europa, então ficou tudo bem.
Na hora, eu chorei por ela. Hoje, nós rimos juntos. Mas aprendi: nada de pressa. Se perder a estação, tudo bem. Não estamos correndo para uma entrevista de emprego. A próxima parada sempre existe (e pode revelar boas surpresas).
Como adaptar o planejamento
Com o tempo, virei especialista em viajar com idosos. Aprendi que adaptações não são concessões, mas investimentos na própria experiência.
Primeiro, a hospedagem: a até 600 ou 700 metros do metrô, no máximo. Mais que isso, vira maratona. Elevador, sempre que possível. Escadas? Às vezes não dá pra escapar e, nesses casos, a regra é clara: ela vai na frente e eu fico na retaguarda antecipando cada passo, cada degrau, planejando o que fazer no caso de um tropeço. Acredite, não é paranoia. Todo cuidado é pouco.
Depois, os roteiros. Nada de encher a agenda de atrações. Menos é mais. O segredo é equilibrar visitas a pontos turísticos com momentos de contemplação.

E aqui entra um dos maiores trunfos de viajar com pessoas idosas: os benefícios. Filas preferenciais em aeroportos, embarque antecipado em aviões, acesso facilitado a museus e monumentos. O que se perde no ritmo, se ganha no atalho. Brinco com a minha mãe que ela tem muita sorte de viajar com um idoso como eu!
Quanto ao transporte público na Europa, eu insisto: não é porque minha mãe é idosa que precisa viver de táxi e Uber. O barato dela é justamente o contrário. Vinda de uma cidade sem metrô, ela vibra ao usar trens e bondes na Europa.
Observa as pessoas, comenta os anúncios em línguas diferentes (tudo errado!), se diverte como uma criança. E eu aprendi a enxergar a beleza desse olhar. Só no aeroporto abrimos exceção: aí sim, Uber. Deus me livre enfrentar metrô com duas malas de 23 quilos.
Os momentos que ficam para sempre
Os momentos mais especiais não estão na Torre Eiffel ou no Museu do Louvre. Estão nas coisas pequenas. No sorriso dela ao provar um croissant legítimo, daqueles que engorduram os dedos e sujam a roupa.
No espanto diante do perfume de uma vela aromatizada de cidre chaude (à venda na Muji, um esplendor). Na felicidade de tomar sopa de cebola com vinho tinto num dia de frio cortante.
Flanar por ruas desconhecidas, sem rumo, lado a lado, talvez seja o que mais guardo comigo. Caminhamos devagar, paramos para observar vitrines de coisas que nunca compraríamos, inventamos histórias sobre pessoas, criamos narrativas no improviso, como se a viagem também fosse um palco de teatro.
E cá entre nós: acho que minha mãe nem sabe direito o que significa flanar. Mas ela vive isso de maneira natural. Não precisa do conceito francês para entender que passear sem pressa, deixando o acaso decidir o próximo passo, é talvez a melhor parte de qualquer viagem.
É nesse ritmo mais lento que as grandes memórias se constroem e, no futuro, são essas cenas aparentemente pequenas que vão valer mais que a foto diante de qualquer monumento.
Pequenos truques que salvam a viagem
Viajar com idosos é aprender que não existe detalhe pequeno. O que parece bobagem, na prática, pode transformar o dia para melhor ou para pior. Ao longo das minhas viagens com a minha mãe, fui percebendo que certos cuidados (alguns até meio prosaicos) fazem toda a diferença.
A preparação começa antes mesmo de sair de casa. Hoje, temos quase um “kit sagrado” que não pode faltar na mala.
Remédios de uso contínuo vêm em primeiro lugar, e sempre em quantidade suficiente, porque encontrar o mesmo princípio ativo em outro país pode virar uma verdadeira novela.
Junto deles, carrego também medicamentos de emergência, como analgésicos, pomadas para dor muscular e até uma joelheira, que já nos salvou de dias inteiros de incômodo.
Acrescento ainda uma bolsa de água quente, companheira fiel que ajuda a aliviar dores nas pernas ou nas costas depois de um dia mais puxado. Confesso: levo até quando não estou viajando com pessoas idosas.
Outro ponto é a alimentação. Descobrimos, por experiência (e recomendação da dentista), que a tradicional baguete francesa não é exatamente amiga dos dentes da minha mãe. A solução foi abraçar alternativas mais macias e seguras, como o brioche e o croissant. Pequenas adaptações como essa evitam sustos.
A solução para os dias que não se pode fugir da baguete? Molhar no café com leite, na sopa, ou, vá lá, até mesmo no vinho (não vou julgar, não vou julgar). Quem, afinal, disse que existe apenas um jeito “correto” de comer uma baguete?

Durante a viagem, o segredo está em aceitar que a programação não será seguida à risca. Espaço para o improviso deve estar presente no manual de qualquer bom viajante, mas com idosos isso é ainda mais importante.
Sempre vai acontecer algo inesperado. Nada disso é tragédia, mas pode virar frustração se você estiver tentando cumprir um roteiro militar. Deixe folgas no cronograma, aceite os desvios, entenda que as pausas são parte da viagem.
Carregar uma garrafinha de água também é fundamental. Evita dor de cabeça, literal e figurada.
No fim, são esses truques discretos, que muitas vezes passam despercebidos, que garantem o conforto e a leveza da experiência. Viajar com pessoas idosass ensina que a atenção aos detalhes é, na verdade, uma forma de cuidado e de carinho.
Mais qualidade, menos quantidade
Viajar com idosos exige paciência, flexibilidade e bom humor. Em troca, oferece algo que não tem preço: a possibilidade de retribuir, de estar junto de quem sempre cuidou de nós, e de descobrir que uma viagem não precisa ser sobre o lugar, mas sobre com quem se está.
A gente aprende que o verdadeiro luxo não está em acumular carimbos no passaporte, mas em ouvir, pela enésima vez, a mesma história contada enquanto caminham lado a lado.
Está em ver os olhos da pessoa brilharem diante de uma atração que para você já não tem mais novidade.
No fim das contas, não importa quantas cidades visitamos, quantos museus entramos ou quantos restaurantes conhecemos. O que realmente importa é o tempo que conseguimos viver juntos. Esse é o tipo de viagem que não se encontra em nenhum pacote turístico.
E quando penso nas nossas próximas férias, já não me preocupo tanto com o roteiro; o destino é só pano de fundo. A verdadeira atração é poder seguir ao lado dela, passo a passo ❤️