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Autor 45190

Erik Nardini Autor(a)

Pega-turista: só se evita armadilhas caindo nelas

Conteúdo criado por humano
9 min de leitura
Autor 45190 Erik Nardini

Todo viajante está sujeito aos dessabores que os destinos reservam: atrações não tão boas, comidas caras e ruins, cobrança por serviços que deveriam estar inclusos no preço... Para que a gente caia nas armadilhas pega-turista, basta sair na rua!

Turistas fazem refeição em região parisiense

Mas nem tudo está perdido. Já passei apertado nas minhas andanças por aí e quero te ajudar a identificar — e evitar — experiências que, apesar de à primeira vista não parecerem tretas, guardam surpresas desagradáveis tanto para as suas memórias de viagem quanto para a sua conta bancária.

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Emoção antes da razão

Quando chegamos em um destino em que nunca pisamos antes, não dá pra negar. Tudo é incrível. A gente se emociona, se encanta, se deixa levar. É natural, somos seres humanos e, como tais, sujeitos facilmente impressionáveis — basicamente, deixamos de raciocinar em favor da emoção à flor da pele. Tudo bem sermos assim, mas isso pode custar caro.

Vamos à cena hipotética (mas nem tanto). Você desembarca para explorar Paris, deixa suas malas no Airbnb e já começa a pensar em turistar. Afinal, não há tempo a perder! Seu coração diz Torre Eiffel enquanto seu estômago grita por uma refeição de verdade. Afinal, passar 11 horas voando e se alimentando à base do puro suco do carboidrato não é fácil.

Mas… você ouve seu coração e vai pra Torre. Selfie daqui, vídeo dali, bonjour de cá, bonsoir acolá. O registro para o Instagram está feito, mas agora é sério: você precisa comer imediatamente.

Em vez de fazer a coisa certa (buscar algo pra comer num endereço em que os locais fazem suas refeições), você para no primeiro restaurante com “vista para a Torre Eiffel” sem sequer olhar os reviews e… lá se foi seu dinheiro num prato desastroso.

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Pagando o preço

O negócio é o seguinte: endereços com “vistas magníficas” para o “monumento X” vão custar caro e ponto. Não se paga um aluguel desses servindo comida de qualidade e tendo garçons interessados em servir bem. O negócio ali é servir de modo apressado e te chutar o mais rápido possível para liberar a mesa para a próxima vítima o próximo cliente.

Vejamos mais uma cena. Em 2024, na feirinha de Natal no Jardim de Tuileries, avistamos, eu e minha mãe, uma barraquinha de torrone. Tudo berrava pega-turista: o escrito “fait maison” (indicando tratar-se da venda de um produto artesanal), doces lindos com preços escritos em caracteres miúdos… mas lá fui eu.

Escolhemos o torrone, mostrando claramente onde queríamos que a atendente cortasse (a cobrança era por peso) e ela, evidentemente, cortou um pedaço bem maior.

Enquanto ela passava a faca, tentei gentilmente argumentar, dizendo que ela não estava atendendo ao meu pedido, mas seu comentário não foi dos mais simpáticos. “Cortou, pagou”, disse. Tá bem. Lá se foram 30€ num pedaço de doce “artesanal”. Não era artesanal, e foi para o lixo dois dias depois.

Viajo há bastante tempo, mas até hoje ainda caio nesses scams. Paciência! O lance é que, ao se organizar direitinho, você minimiza a chance de cair em armadilhas como as que eu já caí e aproveita melhor a viagem.

Chegou num destino? Faça as coisas com calma! Procure um mercado, procure uma boulangerie, abra o Google Maps e veja os lugares bem notados para planejar suas pausas e refeições. Depois, vá turistar em paz.

Saiba o que te espera no seu destino

Você não precisa saber tudo sobre a cidade que vai visitar, mas uma busca antes mesmo de fazer as malas pode te ajudar a saber o que te espera. Vamos a alguns exemplos de coisas às quais você pode se atentar:

  • Na Itália, os restaurantes cobram uma taxa chamada “coperto” que pode variar de 1,50€ a 4€ por pessoa. Não é fraude, é regra;
  • Na França, o serviço dos restaurantes está incluído no preço final e ninguém é obrigado a deixar gorjetas (pourboire). Se o garçom insistir, bata o pé;
  • Ainda na França, os restaurantes são obrigados a oferecer água da casa gratuita caso você se sente para comer. Não gaste com água em garrafa, peça uma carafe d’eau;
  • Em cidades turísticas da Espanha, como Madrid e Barcelona, cujo guia gratuito recomendo, tome cuidado com artistas de rua “amigáveis” que oferecem pulseiras ou flores. Eles colocam no seu braço e depois cobram caro;
  • Em Londres, muitos museus são gratuitos (como o British Museum), mas têm caixas de doação estratégicas na saída. Você pode simplesmente passar direto, sem culpa.

Sair para viajar e ter que se preocupar com essas mixarias é um inferno, mas é real.

Recentemente assisti a algumas reportagens do Le Parisien (em francês, ótimo para treinar) falando justamente sobre pequenas armadilhas do turismo de massa. Em frente à Torre Eiffel, por exemplo, as famosas “fotos com o balão vermelho” se tornaram um clássico pega-turista.

Tudo começa com uma abordagem simpática: alguém oferece ajuda para fazer uma foto criativa, com um balão em formato de coração ou vermelho vibrante, mas termina com uma cobrança nada romântica de 10, 20 ou até 50€ pela “sessão”. Se alguém te abordar, diga apenas que não tem interesse (basta dizer “non, merci”).

Nas brasseries há outros golpes mais sutis: o cardápio anuncia uma pint de chopp, mas o copo vem menor… Já em alguns bares e bistrôs, há relatos de vinhos em taça que são caros sendo trocados por rótulos mais baratos, especialmente quando o cliente é estrangeiro, não domina o francês ou tem cara de “deslumbrado” (quem nunca?).

Série do Le Parisien mostra fraudes contra turistas. Nesse episódio, repórter mostra que bares cobram por pint de chopp, mas servem menos

No caso das cervejas, sempre costumo ir pelos reviews do Google: se o lugar é bem notado, sucesso! Vou sem medo, especialmente quando posso me sentar de frente para o balcão, diante das torneiras. Aí, meus amigos, a chance de passarem a perna é quase nula!

E, no caso do vinho, para evitar mal-estar e discussões, o que faço é sempre pedir a garrafa. Parece exagero, mas o risco de ser engambelado nesse caso também é perto de zero.

Como normalmente sempre tomo duas tacinhas numa refeição durante as férias — e considerando que quase nunca viajo sozinho — eu não bebo os 750ml sozinho, então vale a pena (inclusive financeiramente) pedir a garrafa. Santé!

Essas situações mostram que os pega-turista nem sempre têm cara de golpe escancarado. Às vezes, estão nos detalhezinhos que passam despercebidos na empolgação da viagem. Por isso, vale ficar atento e, sempre que possível, observar o que os locais fazem: que tipo de bebida pedem, se deixam gorjeta.

Ver vídeos no YouTube, ler nossos posts e, sobretudo, conferir nossos guias de viagem são pontos de partida excelentes para fugir dessas armadilhas que azedam o humor até dos sujeitos mais serenos. E não entre no primeiro lugar só porque parece cheio e parece bom.

Observe: as pessoas estão falando o idioma local? Estão comendo pratos locais? As pessoas “têm cara de local”? Se a resposta for sim para todos, ainda vale a pena consultar o endereço no Google Maps e checar a nota. O seguro morreu de velho.

Atrações populares valem a pena, mas escolha bem como visitá-las

Nem todo pega-turista envolve um golpe direto. Às vezes, o que pega mesmo é a falta de planejamento. Cidades como Roma, Barcelona e Madrid recebem milhões de visitantes por ano, e isso tem potencial para arruinar a experiência: filas longas, ingressos esgotados e guias turísticos improvisados oferecendo “acessos VIP” na porta de monumentos. Isso não existe.

Em Roma, o Coliseu e o Vaticano são campeões nesse sentido. Quem tenta comprar ingresso na hora geralmente paga mais caro ou cai em armadilhas de “guias credenciados” que não existem.

Em Barcelona, a Sagrada Família e o Parque Güell também exigem organização: as entradas têm horário marcado e se esgotam rápido. Isso vale também para o Museu do Prado e o Palácio Real em Madrid, que lotam logo nas primeiras horas do dia.

Guia de viagem acompanha turistas na região parisiense
Fazer tours guiados é uma boa estratégia para evitar cair em atrações pega-turistas. Preço costuma ser justo. Foto: Erik Nardini

Reservar um tour guiado (como os oferecidos pelo GetYourGuide e pela Civitatis) costuma sair por um preço justo, e faz diferença principalmente porque guias locais conhecem truques de rota, curiosidades culturais e horários menos cheios.

Outra vantagem é que muitos desses passeios já incluem ingresso prioritário, o que significa pular filas quilométricas e aproveitar melhor o tempo. No fim, é o tipo de gasto que se paga sozinho: menos estresse, mais conteúdo e histórias para contar. Quanto menos tempo você passa em filas, mais você economiza.

Em resumo: o ideal é sempre garantir o ingresso oficial ou um tour guiado com antecedência. Além de evitar filas, você aprende mais sobre a história e ainda tem ajuda para entender o que está vendo. No meu caso, quando finalmente estiver a caminho de explorar Lisboa (na minha lista há tempos!) certamente ficarei de olho em passeios com guias certificados.

Viajar é sobre histórias, não armadilhas

Não deixe que essa coluna te desanime. Os relatos que coloquei aqui são para que você viaje melhor, não para que viaje com medo.

Todo lugar tem problemas, gente querendo passar a perna, atrações que são evidentemente projetadas para extorquir enquanto se travestem de experiências “singulares”. Não são.

Em resumo, o que aprendi na vida já tendo voado por milhares e milhares de quilômetros:

  • Se você quer comer bem, se afaste das atrações. Uma bela vista quase sempre se traduz numa refeição mediana — salvo exceções;
  • Atrações concorridas são concorridas por boas razões: compre seus ingressos em sites oficiais ou em parceiros recomendados. Deixar para decidir na hora é a chance certa para ser trapaceado por ambulantes sem escrúpulos;
  • Falar o mínimo do idioma local é essencial, e dominar os códigos (demonstrar que entende como as coisas num determinado destino funcionam) é prudente.

E não se engane: visitar atrações populares e lugares super conhecidos não é cair na armadilha pega-turista! O que muda é a forma como você se dirige a esses locais, o seu conhecimento prévio sobre o que te espera e o seu desejo de fazer determinadas coisas.

Não tem problema pagar caro num lugar se você sabe que o “restaurante X” tem um prato que Deus-te-livre-não-comer. Não tem problema comprar souvenires a preços exorbitantes perto do Coliseu ou da Sacré-Coeur se você acha que não vai encontrar aquela meia cafona em outro endereço. Tá tudo bem — desde que você esteja ciente!

Produtos pega-turista expostos em Montmartre
Souvenires a preços exorbitantes só são armadilhas se você não estiver preparado: comprinhas bobas fazem parte da viagem (Foto: Erik Nardini)

O que você não pode fazer é se deixar levar por vantagens que não existem, por atrações deploráveis e por gente que te serve mal e cobra caro. Não, aí não dá.

Em qualquer lugar que você visitar, sempre haverá mais lugares bons do que ruins. Afaste-se das zonas turísticas e você poderá confirmar minha afirmação.

Enquanto isso, meu plano é continuar zanzando por aí para ver qual vai ser a próxima cilada da qual eu vou escapar… ou na qual eu vou cair. Depois eu volto para contar.

Boa viagem!    

Autores

Erik Nardini
Erik Nardini
Jornalista, entusiasta de viagens pelo Brasil e fora dele. Em razão da paixão por artes, suas recomendações sempre incluem indicações de museus, artistas e curiosidades sobre personalidades dos países sobre os quais escreve. Guarda um carinho especial pelo Velho Continente. Não perco uma boa exposição. Troco restaurantes caros por bares com vinho e cervejas locais. Adoro flanar por aí fotografando de tudo um pouco e fazer amizade com desconhecidos!

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