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Autor 45194

Larissa Wittig Autor(a)

Voar sozinha com crianças pequenas: sonho ou loucura

Conteúdo criado por humano
10 min de leitura
Autor 45194 Larissa Wittig

Era um dia muito quente de agosto e o aeroporto de Lisboa estava lotado. O que só colaborou para aumentar a minha ansiedade de voar sozinha com crianças pequenas, enquanto esperávamos na fila para fazer o check-in, com o meu coração acelerado.

Mãe aguarda o embarque com os dois filhos representando a realidade de quem voa sozinha com crianças pequenas

Ao meu lado, o meu filho mais velho, com 3 anos, e o mais novo, com 1 ano e 9 meses, além do meu marido, que logo iria se despedir da gente e voltar para a nossa casa na Alemanha, e nós embarcaríamos para Recife com o objetivo de visitar minha família.

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Ansiedade ao voar sozinha com crianças pequenas

Fomos juntos para Portugal cinco dias antes para aproveitarmos um pouco do verão europeu e nesse momento eu e os meninos estávamos prestes a começar a segunda etapa da nossa viagem.

Acho que o abraço que dei no meu marido não foi aquele típico de despedida, mas praticamente um apelo desesperado para ele não ir embora e me deixar sozinha naquela situação.

Tinha me comprometido a fazer assim, então não poderia me desesperar. Pelo contrário, tinha que manter a calma e fazer o meu melhor para dar conta dessa missão, que já estava parecendo impossível àquela altura.

Desde esse meu primeiro voo sozinha com as crianças, que tento pensar que certamente vai ser uma viagem difícil e muito cansativa e que em alguns momentos vai parecer interminável. Mas será só um dia e que terei vários outros para desfrutar com a minha família, depois de vencer essa etapa.

Por sorte, a maior parte das pessoas tende a me tratar melhor quando estou acompanhada das crianças e muitos são prestativos. Sem dúvidas, em todas as minhas viagens com os meninos conversei com bem mais gente do que fazia quando viajava sozinha.

Falei incontáveis vezes para onde estávamos indo e também ouvi muitas histórias. Isso, de certa forma, acabou me ajudando a relaxar um pouco e fazendo com que eu não me sentisse tão desamparada.

Posso dizer que, em muitos momentos, o que salva uma mãe que está voando sozinha com crianças pequenas não é nem o planejamento nem a força dela (embora ajudem muito, claro), mas sim a gentileza anônima de estranhos que ajudam a carregar o peso, literalmente e metaforicamente.

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O improviso permanente

O primeiro desafio da viagem, que era o controle de segurança, foi mais fácil do que eu havia antecipado nos cenários pessimistas que criei na minha mente.

Consegui dobrar o carrinho e colocar na esteira rapidamente, tirar tudo que precisava das malas de mão — imaginem quantos líquidos e lanchinhos eu tinha. Depois, fazer as duas crianças passarem sem mim para o outro lado do sistema de inspeção por raios X em direção a um funcionário desconhecido, eu mesma passar e organizar tudo de volta no lugar. E tudo isso evitando que eles saíssem correndo enquanto eu estava ocupada.

Ufa! Sei que ao ler essa descrição, é bem capaz que muita gente repense a ideia de voar sozinha com crianças pequenas, mas juro que imaginamos pior do que foi.

Uma criança de costas, observa um avião na pista do aeroporto de Lisboa simbolizando a jornada de uma mãe ao voar sozinha com crianças pequenas
Antes de decolar, ele já estava sonhando com o voo e eu tentando manter a calma. Foto: Larissa Wittig

Enquanto esperávamos para saber o número do nosso portão de embarque, ficamos passeando pelas lojinhas porque eu queria deixá-los cansados para aumentar a chance de que dormissem no voo.

No entanto, acho que fiquei bem mais acabada do que eles porque não era fácil carregar todas as nossas coisas e ainda evitar que quebrassem algum galo de Barcelos de cerâmica, enquanto corriam de um lado para outro. Foi um pouco desesperador em alguns momentos.

Na hora de passar pela polícia para sair de Portugal, eu estava com receio se iriam ficar comportados aguardando as eventuais perguntas, porque tive uma experiência que não foi das melhores em Frankfurt, quando fui para o Brasil com eles pela primeira vez, no ano anterior, acompanhada da minha mãe.

Meu filho mais velho, então, com dois anos, quebrou justamente na fila da imigração um vidro de comida para bebê que estávamos levando para o menor. Por sorte, não sujou o chão, mas toda a bolsa e as coisas que estavam dentro.

Acho que de tanto que falei que precisavam ficar parados ao meu lado enquanto eu estivesse falando com o policial, realmente me ouviram — o que, para falar a verdade, não acontece com tanta frequência.

Claro que não faltou a parte de fazerem bagunça com comida em algum momento, mas foi na nossa próxima etapa, enquanto aguardávamos no portão de embarque.

Metade das bolachas de um pacote e uma boa quantidade de pedaços esfarelados foram parar no chão e lá vou eu me abaixar e tentar limpar da melhor forma que pude enquanto tentava mais uma vez manter os dois por perto.

Ajuda de estranhos

Dois homens brasileiros começaram a conversar com a gente nesse momento, deram chocolates para os dois e ofereceram ajuda para carregar as coisas até o nosso assento.

Eu tinha uma mochila, uma mala de mão de rodinha, um carrinho de bebê que ia entregar na porta do avião e duas crianças, uma delas querendo ser carregada no colo.

Então, qualquer ajuda era muito desejada e teria sido realmente difícil sozinha porque o trajeto envolveu ir de ônibus até a aeronave e subir escadarias que pareciam infinitas para ter acesso ao avião. Diria que os dois homens eram praticamente anjos disfarçados.

Um longo voo sozinha com crianças pequenas

Ao sentarmos na nossa fileira de dois lugares, já que o mais novo viajaria no meu colo, eu nem sabia se estava aliviada de ter conseguido ao menos chegar no avião ou se o desespero era maior, ao pensar que em breve estaria voando sozinha com duas crianças por quase oito horas.

Meus meninos não dormiam bem nem em casa, então eu certamente não contava com nenhum milagre.

Eu tinha deixado eles escolherem alguns lanchinhos em Lisboa, então logo após a decolagem já sacaram suas guloseimas, mas claro que tudo acabou rápido.

Deixei assistirem um pouco da programação do avião, que não agradou, mas eu tinha também baixado no meu celular alguns dos desenhos favoritos, o que para o mais velho funcionava bem.

Eu amamentava o meu pequeno, então, nesse dia, quando ele se irritava com alguma coisa ou se entediava e começava a chorar, eu já colocava logo para mamar.

E com o mais velho foi o “dia do sim”. Queria comer chocolate? “Claro, meu amor!” Queria ver mais desenho? “Acho que é uma ótima ideia!” Temporariamente, só me importava que sobrevivêssemos e que, de preferência, não arruinássemos o voo dos outros passageiros.

Em algum momento depois do jantar, achei que deveríamos tentar dormir, mas para isso teria que encarar mais um desafio que estive antecipando ao voar sozinha com crianças pequenas: o banheiro do avião.

Mala de mão infantil com os travesseiros das crianças, no aeroporto alemão simboliza o voo de volta sozinha com crianças pequenas
Encontramos o caminho de volta para Munique depois dessa aventura. Foto: Larissa Wittig

Até hoje não sei como conseguimos essa façanha, mas entramos os três juntos (em voos futuros nunca me deixaram fazer isso novamente, já que só há duas máscaras de oxigênio nos lavatórios e, portanto, não podem estar três pessoas lá dentro).

O mais velho usou o banheiro e o mais novo precisou trocar a fralda. Tudo em meio aos apelos para não tocarem em nada, que falharam miseravelmente, já que pegaram em um monte de coisas, enquanto eu mal conseguia me mover.

O jeito é pensar que o que não mata, nos fortalece e vida que segue com álcool para desinfecção (esse, aliás, é um item muito necessário para quem voa sozinha com crianças pequenas).

Ao voltarmos para os nossos lugares, ambos não demoraram muito para adormecer. O que foi mais difícil foi mantê-los assim, já que a cada barulho despertavam e ameaçavam chorar. Eu já estava odiando os outros passageiros por fazerem tantos ruídos.

Acho que dá para imaginar que eu não dormi e contava os minutos e eles demoravam a passar, da mesma forma que dizem sobre os bebês e crianças pequenas: “os dias demoram a passar, mas os anos passam depressa”.

Eu, que nas minhas viagens do passado sempre ficava um pouco inquieta nos voos de ida pensando em como seria chegar sozinha em um país estrangeiro. Na imigração, na forma de ir para o hotel e todas essas coisas, agora não conseguia relaxar em um voo de volta para o Brasil.

Quase lá!

Como tudo tem um fim, depois do que pareceu anos, o avião pousou e meus pequenos viajantes estavam ranzinzas por serem acordados mais uma vez. Tudo que eu precisava, né?

De alguma forma, consegui que descessem e andassem até a imigração, que demorou muito mais do que na Europa. Mas o que realmente custou o pouco de paciência que eles ainda tinham foi a espera pelas malas.

Quando finalmente consegui achar todas e acomodar no carrinho surgiu mais uma questão: como levar tudo até o saguão do aeroporto, onde encontraríamos meus pais?

Acho que minha cara de desespero tocou o coração de uma mulher que estava próxima da gente e ela se ofereceu para empurrar o meu carrinho de bagagens, enquanto eu me ocupava das crianças. No entanto, ela estava com dois carrinhos porque tinha o dela também e equilibrar ambos estava impossível.

Então disse a ela que não se preocupasse, que eu pediria para outra pessoa. Vi um homem sem malas e o abordei, perguntando se ele se importaria de me ajudar e ele foi gentil e se dispôs a empurrar o carrinho.

Quando finalmente saímos no saguão e vi os rostos contentes dos meus pais, não pude acreditar que tinha conseguido voar sozinha com as crianças e chegar ali com todos sãos e salvos, quase chorei de emoção. O ar úmido e salgado de Recife nos recebeu e finalmente meu coração ficou leve outra vez.

A volta é mais fácil?

Sinto dizer que não. O nosso voo de volta para Munique, um mês depois, parecia ao mesmo tempo mais tranquilo porque eu já tinha conseguido uma vez, mas ao mesmo tempo mais preocupante porque agora eu sabia pela experiência o que me esperava. E bem, tudo começou já de forma emocionante com mais de duas horas de atraso para sair da capital pernambucana.

Isso significa que os dois dormiram e tive que contar mais uma vez com a ajuda de estranhos. Dessa vez, um casal idoso, inclusive, me ajudou a carregar os meninos até os assentos porque tive que desmontar o carrinho na porta do avião.

Para completar, quase perdemos a conexão para a Alemanha no aeroporto mais uma vez lotado de Lisboa. E em Munique, o meu filho mais novo apertou o botão de emergência no banheiro, onde fui trocar a fralda dele, e tive que me explicar antes que enviassem uma equipe de resgate.

itens de bebê e mão de criança
Entrar no voo preparado é essencial para uma viagem tranquila. Foto: Larissa Wittig

Já do lado positivo, conhecemos um casal alemão que se prontificou a nos ajudar a levar nossas coisas até encontrarmos com o meu marido no aeroporto da capital bávara, no desfecho da nossa odisseia.

Certamente não foi nada fácil, mas querem saber se eu faria de novo? Logo depois do voo, eu teria dito que nunca mais, mas foi só deixar um pouco de tempo passar e eu tomei coragem para repetir.

Voei mais três vezes sozinha para o Brasil com meus dois filhos depois dessa primeira viagem e, por sinal, estou escrevendo essa crônica poucos dias após fazer esse trajeto mais uma vez, só eu e eles.

Vale a pena voar sozinha com crianças pequenas?

Se eu tivesse a possibilidade de voar acompanhada de outro adulto, certamente iria preferir porque é menos estressante. Mas talvez o meu amor por viagens e a vontade de ver a família sejam tão intensos que esqueço as dificuldades, assim como dizem por aí que “esquecemos” os sofrimentos de um parto e encaramos a possibilidade de ter um segundo filho.

Não sei se ficou mais tranquilo com o tempo, diria mais que os desafios mudaram, mas eles já sabem o que esperar e gostam muito da nossa aventura para chegar aqui.

E em cada viagem com crianças, mesmo exausta, fico orgulhosa da gente por mais uma vez termos conseguido e com a minha fé nas pessoas renovada.

Diria que, apesar de um dos maiores medos dos pais que voam com crianças pequenas ser o de incomodar outros passageiros e das reações que vão enfrentar, eu diria que nunca ninguém me tratou mal ou foi desrespeitoso por eu estar viajando com meus filhos (e que fique claro, meus pequenos não são dois anjinhos).

Muito pelo contrário, outros passageiros saíram do caminho deles para me ajudar com gestos enormes de gentileza e palavras encorajadoras.

Conheço perfeitamente a ansiedade, o medo ao pensar se daremos conta, mas não estamos realmente sozinhos, sempre podemos recorrer aos outros e essa é uma das maiores belezas que vejo em viajar: não apenas explorar os lugares, mas conhecer as pessoas e se surpreender com elas.

No final, eu diria que voar sozinha com crianças certamente não é um sonho, mas sim uma loucura possível e que tem que ser planejada nos mínimos detalhes.

Mas mesmo assim muita coisa vai sair diferente do planejado e você vai exercitar a sua flexibilidade, criatividade, paciência e mais uma série de virtudes.

Sabe aquele dia em que você sente que envelheceu dois anos? É bem assim! Só que cada cabelo branco adicional vai ter valido a pena no final dessa longa viagem, já que serão muitas memórias dos voos e das férias e, além disso, vai chegar um momento no futuro em que todos os perrengues vão render boas risadas.

Autores

Larissa Wittig
Larissa Wittig
Larissa é jornalista com mestrado em gerenciamento de comunicação e mídia. Em 2018, a paulistana deixou para trás a agitação da maior cidade brasileira para viver em um vilarejo na Baviera, no Sul da Alemanha. A paixão por explorar o mundo já a levou a 38 países, sendo 21 deles na Europa, além de temporadas de estudo na França e na Espanha. Agora tem amado revisitar seus lugares favoritos com seus dois meninos e seu marido e ter uma perspectiva nova ou conhecer destinos inéditos juntos. O seu objetivo é unir aqui sua formação em comunicação com seu amor por viagens para inspirar os leitores a realizarem seus sonhos.

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