Nas minhas viagens pelo velho continente, eu caminhava o dia inteiro, passava horas em museus lendo sobre todas as obras que me interessavam, comia um jantar com sobremesa enquanto tomava um vinho e conversava tranquilamente. Porém, desde que me tornei mãe, comecei a viver uma verdadeira redescoberta da Europa.
Primeira vez na Europa
Reencontro com Viena
As viagens mudaram
Redescoberta da Europa em Viena
Desafios ao viajar com crianças
A divertida redescoberta da Europa
Passeios exigem flexibilidade e adaptação
Redescoberta da Europa pelos olhos dos meus filhos
Atualmente, as caminhadas envolvem muitas paradas e um pouco de reclamações das crianças, nos museus eu mais corro de um lado para o outro do que leio qualquer coisa, os jantares são comidos com pressa e muitas vezes mal consigo terminar uma taça de vinho.
Agora eu tenho que procurar parques infantis, carrosséis e locais que vendem sorvetes, mas ao invés da Europa séria e velha, estou explorando um continente lúdico e mais barulhento. Eu diria que estou redescobrindo as cidades em que já estive pelo olhar dos meus filhos.
Quer viver uma experiência única na Europa? Criamos roteiros sob medida para transformar sua viagem em uma história inesquecível. Você faz o match com a consultora ideal e recebe um roteiro pensado exclusivamente para o seu perfil.
Quero meu roteiro personalizado →Primeira vez na Europa
Na minha estreia no velho mundo em 2008, quando eu tinha 19 anos, Viena foi uma das cidades que eu e meu ex-namorado visitamos. Era verão, mas a capital austríaca me pareceu tranquila quando comparada a Londres ou Paris e de uma beleza cinematográfica com seus prédios imponentes e flores enfeitando as praças e jardins.
Eu me sentia praticamente como se estivesse em um sonho ao som de música clássica enquanto explorava a cidade.
Caminhamos com calma pelas margens do rio Danúbio, comemos bolo na confeitaria Demel que havia sido recomendada por uma amiga da minha mãe, visitamos o Palácio Belvedere, fizemos um tour pela Catedral de São Estevão, incluindo as sombrias catacumbas.
A verdade é que na maior parte do tempo simplesmente andamos sem destino certo, apenas admirando a beleza arquitetônica, já que nós dois gostávamos muito de história e arte.
Éramos jovens no primeiro ano da universidade, ainda aprendendo sobre o mundo adulto e vivendo intensamente o primeiro amor.
Em uma conversa online de 60 minutos, receba orientações práticas para planejar sua viagem com mais segurança e menos incertezas.
Agendar minha conversa →Reencontro com Viena
Durante minha primeira viagem a Europa, eu pensava que tinha que aproveitar tudo ao máximo porque provavelmente demoraria muito para poder voltar, queria absorver séculos de história em poucos dias, mesmo sabendo que era impossível.
Mas por sorte não demorou tanto para eu ir mais uma vez a Viena. Dois anos depois, vim sozinha para a Europa e fiz um roteiro pelo Leste Europeu, que incluiu a Áustria.
Ao chegar, mais uma vez no auge do verão europeu, me senti como em um reencontro com uma velha conhecida, só que dessa vez era como se a atmosfera tranquila e romântica não estivesse mais tão presente.
Já percebi ali que voltar a uma cidade é, de certo modo, como voltar a versões antigas de nós mesmos e cada visita não deixa de ser uma redescoberta da Europa, embora o continente só tenha mudado definitivamente para mim mais tarde, ao viajar com meus filhos.
Caminhei pelas ruas cheias de turistas e pelos mesmos jardins do Palácio Belvedere, visitei a loja da Swarovski que abrigava instalações artísticas e assisti à ópera. Mas, como a minha impressão de Viena havia se transformado junto comigo, eu já não enxergava corações em cada esquina, embora me lembrasse o tempo todo de quando estive ali pela primeira vez.
Hoje, aos 36 anos, é claro que penso que era bem jovem aos 21 anos, mas na época eu já me considerava bem mais madura do que na primeira viagem. Diria também que mais livre, eu continuava tendo muita vontade de conhecer lugares novos e bonitos, mas era como se quisesse enxergar um outro lado da Europa essa vez.
Ao mesmo tempo, em que meu roteiro pelo Leste Europeu contou com festas, foi principalmente uma viagem que eu definiria como tendo uma carga histórica bem pesada, por serem países onde a memória da Segunda Guerra Mundial e do Holocausto segue muito viva.
Naquele verão, eu visitei o campo de concentração de Auschwitz- Birkenau e a antiga fábrica de Schindler, ambos na Polônia, então embora Viena fosse um destino digamos “mais leve”, de alguma forma esteve imersa nesse contexto para mim, já que era parte do roteiro.
As viagens mudaram
Passei muitos anos sem voltar a Viena, embora tenha ido muitas vezes a outras cidades austríacas, já que em 2018 vim morar na Alemanha, próxima à fronteira com o país natal de Mozart.
E quantas coisas aconteceram nesse período: me casei, me mudei de continente, concluí meu mestrado, tive dois filhos e claro, junto com todas essas transformações, meus estilos de vida e de viagem mudaram bastante.
Atualmente, eu e meu marido buscamos sempre destinos que possam oferecer atividades interessantes para as crianças. Preferimos evitar muitos deslocamentos entre cidades, priorizamos boa infraestrutura e segurança e também consideramos o tempo de viagem com cuidado, embora já tenhamos feito muitos percursos longos com eles, como a nossa roadtrip por quatro países.
Pensando em tudo isso, estávamos procurando um destino para passar a primeira semana de janeiro, ou seja, auge do inverno. E na época, meus meninos tinham 3 anos e 2 anos e não tanta paciência para ficar no carro por longas horas.
Redescoberta da Europa em Viena
Eu tinha lido bastante sobre como a capital austríaca era um destino ótimo para crianças e fiquei com bastante vontade de rever a cidade, meu marido nunca tinha visitado, apesar de ter vivido a maior parte da vida a pouco mais de 5 horas de carro da capital da Áustria.
Ele não estava muito convencido, mas como falei que tinha um zoológico incrível com ursos panda (o de Munique que vamos sempre não tem), um museu específico para crianças (Kindermuseum) e outros que poderiam ser interessantes também, um parque de diversões lindo (Prater) e a gastronomia de Viena que as crianças conhecem e gostam, ele acabou topando.
Chegamos no fim da tarde e dessa vez voltei acompanhada de muitos amores, de uma família. Os meninos ainda estavam dormindo no carro e a cidade era outra no inverno, sem as flores, trânsito intenso, o céu cinzento e as pessoas apressadas e sem muito entusiasmo de estar na rua com aquele vento gelado.

E naquela noite ainda tivemos que ir passear no frio porque como os pequenos dormiram muito no carro, não estavam com nenhuma vontade de ir para a cama cedo.
Antes, se eu fosse sair pela rua a noite e no frio em uma viagem seria para ir a algum restaurante ou bar, mas na minha redescoberta da Europa com os meus filhos, caminhar em condições climáticas desfavoráveis só para deixá-los cansados era uma nova realidade.
E assim mais uma vez lá estava eu andando nas margens do rio Danúbio, mas em outro ponto, mais afastado do centro e sentia que estava prestes a ver nos próximos dias uma Viena transformada pelos anos e pelas circunstâncias, como eu. E dessa vez o tempo já não era meu, era nosso.
Desafios ao viajar com crianças
Na manhã seguinte, decidimos deixar o carro no estacionamento próximo a nossa acomodação e nos locomover utilizando transporte público porque além de fácil e prático, os meus filhos adoram.
Como moramos em um vilarejo rural na Alemanha, eles se divertem muito com coisas de cidade grande, como trens, táxis, escada rolante e elevador. É bem possível que tenham achado o metrô mais impressionante do que o Palácio de Schönbrunn.
Caminhamos um pouco pelo centro, passando pela Karlskirche, onde a paisagem era familiar para mim, até chegarmos novamente ao jardim do museu Belvedere, que certamente era diferente no inverno europeu, mas continuava bonito.

Admiramos o lindo edifício, os meninos correram um pouco por ali, mas nossa paz durou pouco e ficamos bem mais tempo do que planejávamos, pois dissemos para o meu filho de 3 anos que ele não podia fazer alguma coisa e aí começou um grande ataque de choro (um dos mais longos que ele já teve). Sim, esses episódios também fazem parte da redescoberta da Europa.
Permanecemos no jardim sentados brincando com pedrinhas pelo que pareceu uma eternidade até ele se acalmar e nesse momento obviamente já estávamos nos questionando se a viagem tinha sido uma boa ideia.
Mas é claro que ele também tinha ataques de choro em casa, então o jeito era respirar fundo, ter paciência, entendendo que tudo era novo para ele e tentar lembrar de porque achávamos tão importante viajar com as crianças.
É assim explorando novos ambientes que os pequenos ganham confiança, mas nem sempre é fácil, né? Porém, vale o esforço ao pensarmos que estamos fortalecendo nossos vínculos familiares, ajudando no desenvolvimento deles, permitindo que aprendam de forma prática ao descobrir novas culturas e todos nós estamos trabalhando nossa flexibilidade e paciência.
Já com os olhinhos secos, continuamos nossa caminhada por prédios antigos e monumentais, parques, ruas com lojas luxuosas e em alguns locais ainda havia resquícios de decoração natalina.
Muitas vezes, ouvimos reclamações de cansaço e fizemos infinitas paradas, tanto para brincar quanto para comer. No fim do dia, estávamos todos acabados, mas sobrevivemos.
A divertida redescoberta da Europa
A visita ao zoológico no dia seguinte foi mais tranquila, correram o tempo todo de um lado para o outro para ver os animais, se divertiram no parquinho e esqueceram que provavelmente estavam exaustos.
Admirar coalas e ursos panda foi um novo lado de Viena, onde eu já nem pensava que estávamos naquela cidade séria e tão clássica, ao me ver cercada de crianças animadas.
Fomos passando os dias tentando intercalar os interesses infantis e dos adultos nessa minha viagem de redescoberta da Europa, porém tivemos que visitar o lendário parque de diversões Prater algumas vezes.
Eles não se cansavam de ir no carrossel e em carrinhos para crianças pequenas, de andar de pônei (sim, também há essa opção lá!) e de beber chocolate quente e comer Kaiserschmarrn (uma panqueca grossa e fofa rasgada em pedaços com compota de maçã e polvilhada com açúcar, típica da região alpina). Ah, e claro que queriam a todo custo pegar bichinhos de pelúcia naquelas máquinas que tem uma garra.
Também gosto de parques de diversões como o Prater porque me dão uma certa nostalgia e estava especialmente bonito com a decoração natalina e muitas comidas do período de festas.

E confesso que quando era criança amava essas máquinas de ursinhos de pelúcia e agora entendo o que meus pais passaram para tentar me convencer que não dava para tentar infinitamente agarrar um.
É incrível como a maternidade nos faz revisitar tantas vezes a nossa infância e muitas vezes eu me lembro também de como eram as minhas viagens com os meus pais quando estou com os meus filhos para dividir essas memórias com eles. Assim muitas vezes acabamos descobrindo muitos interesses compartilhados (nem que seja a máquina de agarrar bichinhos de pelúcia!)
No decorrer da viagem, visitamos outro ponto turístico bastante conhecido de Viena que foi bem marcante para mim nessa redescoberta da Europa: a Catedral de São Estevão.
16 anos antes, explorei a igreja e as catacumbas e dessa vez subi até a torre com o meu filho de 3 anos e juntos admiramos a cidade lá do alto, procurando meu marido e meu filho mais novo lá embaixo.
Acho que esse é um dos maiores símbolos de como um local sério e até sombrio se converteu em um lugar divertido e leve ao ter uma criança ao meu lado e como a catedral acabou sendo ressignificada para mim.
Aproveitamos ainda um dos dias para ir até Bratislava, na Eslováquia, de carro, já que ficava a cerca de 1h de Viena. Conseguimos explorar bem a cidade a pé, fazendo uma longa pausa para almoço e depois mais uma para um café com bolo.
Passeios exigem flexibilidade e adaptação
Acho que muitas vezes em viagens nas quais só há adultos, especialmente jovens, acabamos querendo ver tantas coisas, que não valorizamos realmente sentar em um local e tomar uma bebida olhando quem passa e a vida local.
Com crianças observamos mais o que acontece e as pequenas coisas, até porque em muitos momentos buscamos algo que possa chamar atenção delas, então várias vezes notamos até mesmo os insetos.
Mas claro que viajar com crianças exige também que pensemos em muitas questões de ordem prática, como as sonecas, a alimentação, o que vamos levar.
Como meu filho mais novo sempre fazia suas sonecas da tarde no carrinho, facilitava muito porque continuávamos passeando enquanto ele descansava. O mais velho já não fazia soneca, mas claro que muitas vezes ele também precisava sentar no carrinho ou ser carregado.

Viajar com crianças pequenas também demanda muito fisicamente porque além de você ter que correr com frequência para alcançá-los em lugares que eventualmente não estão de mãos dadas, você ainda precisa carregá-las e levar todas as coisas que vão precisar (quero dizer água, lanches, fraldas, roupas extras e no inverno muitas roupas de frio para todos).
Se antes eu achava desafiador carregar minha mala grande em escadas nos dias que estava me deslocando de uma cidade para a outra no velho continente, agora tenho que carregar muitas coisas o dia todo e todos os dias, mas a gente se acostuma.
Redescoberta da Europa pelos olhos dos meus filhos
Terminamos nossa viagem com os meninos dizendo que queriam morar em Viena, então eu diria que fomos bem-sucedidos. E eu fui embora pensando na capital austríaca de uma forma mais objetiva, com olhos de quem avalia se uma cidade é boa para viver, agradável para os seus habitantes e para criar pequenos seres humanos.
Eu não saí de lá apaixonada e vendo flores por todo lado, como da primeira vez, mas enxergando uma cidade mais real e plural e também mais divertida.
Pensei nesse momento sobre como as diferentes fases da nossa vida se refletem nas viagens e como os lugares mudam de acordo com o que estamos vivendo e ainda como as experiências não se repetem, mas podem ser maravilhosas de uma nova forma.
Quando deixei o Brasil para viver na Alemanha, pensei que a Europa já não me surpreenderia tanto (um tanto arrogante, eu sei!). Mas foi em Viena que tive a certeza de que cada retorno é uma nova experiência e, atualmente, para mim, o maior encanto está em ver o mundo renascer nos olhos dos meus pequenos.
Muitas vezes, não precisamos de tanto para sentir a novidade. Basta voltar e permitir que a vida nos mostre as cores que antes, em outros contextos, estavam invisíveis.